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Arquitetura Gótica

Torres de Serranos

A porta que foi desenhada para lisonjear o poder, sobreviveu porque era uma prisão e acabou escondendo obras do Museu do Prado.

35 min de áudioFortaleza Medieval

Se você procura o que ver nas Torres de Serranos, esqueça o romantismo do clássico cartão postal medieval. Construídas entre 1392 e 1398 por Pere Balaguer, nasceram como uma máquina urbana de dois gumes: um acesso colossal para intimidar e, ao mesmo tempo, um gigantesco arco do triunfo para a pompa dos reis. À primeira vista parece pura engenharia defensiva, mas a sua história está cheia de improvisações pragmáticas e reviravoltas irônicas.

A arquitetura das Torres de Serranos engana o espectador moderno. O que hoje é pedra nua, outrora foi um festival policromático. No entanto, a sua verdadeira sobrevivência não dependeu da sua beleza, mas da sua capacidade de abrigar a miséria humana. A história secreta que esconde nas suas abóbadas exige mais do que uma leitura superficial; para entender como este bloco de pedra evitou a demolição e chegou a guardar o maior tesouro artístico do país, você precisa ouvir o audioguia enquanto caminha por ele.

Highlights

  • Fachada exterior — Propaganda e poder medieval
  • Passagem principal — O bunker secreto do Museu do Prado
  • Fachada interior — O desenho militar traseiro
  • Terraços com ameias — O palco vivo da Crida

Descubra a história completa

Ouça o áudio-guia completo para este ponto e muitos outros em nosso aplicativo gratuito.

Se está a planear o que ver nas Torres de Serranos, assuma que o edifício lhe está a mentir um pouco. Esta não é a típica defesa heroica. Entre 1392 e 1398, os Jurats de València encarregaram Pere Balaguer de uma estrutura que funcionaria como arco do triunfo para receber as elites e como fortaleza contra ataques. Uma bipolaridade arquitetônica que define toda a sua existência.

A história secreta desta massa de pedra está repleta de decisões cruas. Ao longo dos séculos, esta passagem natural para os viajantes da região de Los Serranos passou da exibição de uma policromia colorida a um buraco de prisão. A sua verdadeira biografia não pode ser compreendida olhando para fotos numa tela; você precisa ficar sob os seus arcos, sentir a queda de temperatura e deixar-nos contar-lhe, no local, como um muro projetado para repelir artilharia acabou se salvando por acidente.

A porta que queria impressionar

Torres de Serranos

A partir da praça, a escala imensa intimida. Esse era o objetivo exato. Queriam um acesso que gritasse autoridade. Contudo, não se deixe enganar pela atual crueza do monumento. Originalmente, os brasões reais e a decoração gótica desta fachada eram brilhantemente policromados. Era pura propaganda visual, concebida para lisonjear os embaixadores antes de cruzarem a muralha.

A arquitetura das Torres de Serranos nesta frente exterior é uma ação de relações públicas disfarçada de ameaça militar. Para compreender o verdadeiro pragmatismo medieval que regeu a sua construção, tem que dar as costas à monumentalidade e preparar-se para dar a volta ao edifício. A chave para a sua defesa, curiosamente, reside no que lhe falta. No aplicativo dar-lhe-emos as coordenadas exatas para compreender este truque visual.

O reverso que revela a sua estratégia

Torres de Serranos

Ao olhar para a Plaza de los Fueros, a grandeza desaparece. As traseiras do edifício estão completamente seccionadas, deixando as salas e as abóbadas de nervuras expostas à vista dos cidadãos. Não foi um corte no orçamento, mas pura e simples paranoia.

O manual militar da época exigia que, caso os inimigos tomassem as torres, não pudessem entrincheirar-se nelas para atacar Valência por dentro. Um pragmatismo brutal que desmonta o mito do monumento impenetrável. O que é arrogância na frente é uma desconfiança quase pessimista na parte de trás. E por falar em cenários sombrios, este mesmo design aberto leva-nos diretamente à função mais obscura que estas paredes albergaram.

A prisão que impediu a demolição

Passagem principal das Torres de Serranos

Sob o arco semicircular, a sombra impõe outro tom. Entre 1586 e 1887, estas nobres salas acabaram funcionando como uma prisão para cavaleiros. Parece um tratamento preferencial, mas a precariedade era tal que, segundo as crónicas, os prisioneiros chegaram a amotinar-se, fartos das miseráveis rações do carcereiro.

A ironia é que esta função de prisão foi o seu salva-vidas. Quando o Governador Cirilo Amorós derrubou a muralha em 1865 para expandir a cidade, perdoou as torres sobretudo por ainda servirem como prisão. Sobreviveram para desempenhar um papel ainda mais surreal: em 1936, o governo da Segunda República construiu aqui uma abóbada de concreto com quase um metro de espessura. O objetivo? Criar um bunker climatizado para salvaguardar obras do Museu do Prado evacuadas durante a guerra. Os detalhes de como as grandes obras-primas se entrincheiraram num edifício gótico serão sussurrados para você na paragem correspondente do audioguia.

Do balcão medieval ao grito das Fallas

Terraços das Torres de Serranos

No alto dos terraços com ameias, o vento constante e a vista panorâmica do antigo leito do rio Turia limpam a atmosfera claustrofóbica. Após séculos acumulando funções militares, penitenciárias e de bunker, a cidade decidiu devolvê-lo ao uso público, mas à sua maneira.

Desde 1954, no último domingo de fevereiro, este antigo parapeito defensivo torna-se no epicentro da festa. A Fallera Mayor aparece aqui para dar a ‘Crida’, anunciando que Valência está nas Fallas. É o fecho perfeito para um edifício cínico: uma estrutura erguida para manter os intrusos de fora, que agora serve para convocar a multidão. Para compreender a magnitude física dessa mudança e a escala real da cidade a seus pés, baixe a experiência e suba as escadas connosco.

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