O Wat Umong esconde-se numa floresta densa ao pé do Doi Suthep, a cerca de dois quilómetros a oeste do centro histórico de Chiang Mai. O rei Mangrai fundou-o por volta de 1297 com o nome de Wat Welukadtharam, e durante o reinado de Kue Na, na segunda metade do século XIV, foi reparado e ampliado com a obra que lhe deu o nome atual: uma rede de galerias de tijolo abobadado — umong significa túnel em tailandês do norte — escavadas sob o montículo do chedi principal e decoradas com pinturas budistas.
É um wat pa, um templo da floresta, tipologia monástica pensada para meditar longe do ruído urbano e ligada à corrente theravada dos monges errantes do bosque. A sua distância da cidade não foi um acaso mas um requisito. Continua hoje a servir exatamente para isso: retiros de meditação, um programa de conversa com monges em inglês e um recinto onde tartarugas, peixes e aves partilham os caminhos com os visitantes.
O que ver
- Túneis do século XIV — Galerias de tijolo abobadado sob o chedi, com restos do programa pictórico original
- Maha Thera Chan — O monge errante para quem, segundo a tradição, se escavaram as passagens
- Árvores falantes — Tabuinhas com máximas budistas penduradas nos troncos desde meados do século XX
- Campo de Budas danificados — Imagens fragmentadas recolhidas na região e conservadas com respeito
- Buda do jejum — A figura emaciada diante da qual o costume local oferece água, não flores
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Chiang Mai tem templos que deslumbram e templos que fazem o contrário: apagam a luz. O Wat Umong pertence ao segundo grupo, e a sua penumbra é um requisito de desenho, não uma consequência do abandono. Fundado por volta de 1297 pelo rei Mangrai como templo da floresta, situa-se a cerca de dois quilómetros a oeste do centro histórico, numa zona que no final do século XIV ficava claramente fora da cidade. Essa distância era a condição do projeto, não o seu inconveniente.
A história secreta do Wat Umong começa onde termina a de qualquer outro mosteiro: debaixo de terra. A sua rede de galerias de tijolo é uma anomalia na arquitetura religiosa tailandesa, ao ponto de o templo se chamar literalmente «túnel». Compreender o que ver no Wat Umong exige percorrer o recinto à superfície e por baixo dela, e aceitar que boa parte do que se sabe sobre a sua origem é tradição sustentada mais do que documento provado. O audioguia da EarGuide acompanha essas quatro paragens pelo bosque e pelas galerias.
O pilar indiano num templo da floresta
Pilar de Asoka
O percurso abre na entrada principal, onde surge o primeiro desajuste do conjunto. A atmosfera é florestal, silenciosa, deliberadamente austera, e no entanto o acesso está marcado por um elemento que remete para um contexto muito diferente e muito anterior ao reino de Lanna.
Essa dissonância introduz bem o que se segue. O Wat Umong está classificado como wat pa, templo da floresta, tipologia concebida para a prática meditativa em ambientes naturais e ligada à tradição dos monges do bosque, os araññavasi. Não é uma variante decorativa do mosteiro urbano: é outro modelo, com outra relação com o ruído, a luz e a vegetação.
O bosque que rodeia a entrada não é um jardim ornamental mas parte do dispositivo. Em redor do montículo do chedi estende-se um lago onde tartarugas, peixes e aves vivem sem barreiras junto dos visitantes. Por que motivo essa fauna faz parte do funcionamento do templo, e não apenas da sua paisagem, é algo que a narração desenvolve desde a primeira paragem.
Um chedi erguido sobre uma gruta feita à mão
O grande Chedi
A segunda paragem situa-se na base do grande chedi, estupa circular acampanada de tijolo, de silhueta escalonada, cujas proporções refletem o protótipo cingalês que caracteriza a arquitetura religiosa do norte da Tailândia. Do lago e dos jardins, o seu volume domina o recinto.
O relevante não é a sua forma mas a sua função estrutural. O chedi não se limita a coroar um montículo: cobre e unifica o sistema de galerias que se estende por baixo. É, literalmente, a tampa de uma gruta feita à mão. As bocas de acesso — arcos de tijolo de secção semicircular abertos no flanco do montículo — tornam essa relação visível do exterior.
A datação do conjunto é mais frágil do que a tradição sugere. Embora o relato local situe a escavação na época do rei Kue Na, entre cerca de 1355 e 1385, alguns investigadores sustentam que as estruturas atuais poderão corresponder a remodelações posteriores, e não existe consenso sobre que partes pertencem ao século XIV. Como se argumenta cada posição é explicado diante das bocas dos túneis.
Os túneis onde ainda restam aves pintadas
Rede de túneis (Umong)
O interior das galerias muda por completo o registo do percurso. As passagens de tijolo abobadado permitem circular de pé e formam uma rede sob o chedi; a luz natural desaparece quase de imediato e o som do bosque apaga-se. É exatamente o efeito para o qual, segundo a tradição, foram construídas.
O relato é um dos mais singulares do budismo do norte. Conta que o rei Kue Na nutria grande veneração por um monge chamado Maha Thera Chan, célebre pelas suas qualidades meditativas e igualmente pela sua incapacidade de permanecer num sítio: vagueava sem rumo pelo bosque. O rei mandou escavar as galerias e decorar as paredes com pinturas budistas para criar um ambiente sem luz, sem vistas e sem ruído urbano em que aquela mente inquieta pudesse por fim fixar-se. Um retiro construído à medida de um temperamento.
Desse programa pictórico apenas sobrevivem fragmentos: restos de pigmento e contornos de figuras budistas — entre elas aves — em alguns troços das paredes. A sua perda não se deve apenas ao tempo, mas em parte a um restauro do século XX que danificou as pinturas. Convém acrescentar que a função original dos túneis também não está documentada com precisão: há estudiosos que apontam para câmaras de culto ou depósito de relíquias, e que consideram a história do monge errante uma elaboração narrativa posterior. O que sustenta cada hipótese é exposto dentro das galerias.
Estátuas partidas e árvores que continuam a ensinar
Cemitério de Budas
O trilho do bosque conduz à parte mais desconcertante do recinto: um campo aberto onde jazem dezenas de imagens do Buda fragmentadas, decapitadas ou erodidas. A primeira leitura, quase inevitável, é a do abandono. A segunda é mais precisa: as peças foram recolhidas em vários pontos da região e reunidas aqui como prática deliberada de conservação respeitosa de objetos sagrados que já não podiam manter-se em uso ritual.
A crença local que interpreta esse campo como o rasto literal do esquecimento sofrido pelo próprio templo circula com força, mas não corresponde ao documentado. É certo que o Wat Umong atravessou um período prolongado de degradação — situado aproximadamente nos séculos de instabilidade do Lanna e de dominação birmanesa — antes de ser restaurado e revitalizado como centro de meditação ao longo do século XX.
Entre as árvores do mesmo trilho pendem tabuinhas com provérbios e máximas budistas em tailandês, páli e inglês. Não é uma instalação fechada: os monges residentes vêm acrescentando-as desde pelo menos meados do século XX, pelo que a coleção cresce e muda. Nos jardins espera ainda um Buda do jejum, a figura extremamente magra que representa o período de privação anterior à iluminação, diante da qual o costume local oferece água em vez de flores ou incenso. Por que motivo esse gesto e não outro é a pergunta com que a EarGuide encerra o percurso.