Património da UNESCO
Audioguia Lago do Sul (Nanhu)
Um lago que antes foi terra de cultivo: em 1607 Hongcun sacrificou cerca de cem mu de campos para guardar a sua água e desenhou com eles um arco retesado ao pé da aldeia.
- 30 min de áudio
- Engenharia da água
O Lago do Sul é o ponto final do sistema de água de Hongcun, uma das Aldeias Antigas do Sul de Anhui inscritas pela UNESCO em 2000 juntamente com Xidi. No esquema do boi com que se descreve a planta da povoação, os canais são os intestinos e este lago é o ventre: aqui desagua a água que percorre as vielas depois de passar pela Lagoa da Lua. A sua forma de grande arco, partido por um dique central que faz de flecha, foi traçada a imitar uma paisagem célebre do Lago Oeste de Hangzhou.
A imagem mais fotografada de Hongcun, a Ponte Pintada sobre o dique, é provavelmente a peça mais recente do lago: segundo as fontes locais, foi construída na reparação de 1986. Ainda assim, o seu nome é atribuído a um verso do século XVIII, e em 2000 Ang Lee transformou-a na passagem por onde Li Mu Bai atravessa com o seu cavalo em «O Tigre e o Dragão».
O que ver
- Ventre do boi — o fim do sistema de água de Hongcun
- Cerca de cem mu de campos de cultivo escavados em 1607
- Planta de arco e flecha inspirada no Lago Oeste de Hangzhou
- Ponte Pintada — a passagem de Li Mu Bai em «O Tigre e o Dragão»
- Lua cheia e lanternas na noite do Meio do Outono
Ao sair do labirinto de vielas e canais de Hongcun, o espaço abre-se de repente sobre um espelho de água curvado como um arco. A história do Lago do Sul começa com um problema muito terreno. Por volta de 1405, a conselho de geomantes, a aldeia abriu um canal para trazer a água do Ribeiro Oeste; cerca de duzentos anos depois, a população e o número de casas tinham crescido tanto que a Lagoa da Lua já não bastava como reservatório. As fontes fixam a obra em 1607, o ano dingwei da era Wanli da dinastia Ming, embora outras versões falem apenas de «duzentos anos depois» do canal, ou de uma ampliação mais do que de uma escavação nova.
O que hoje parece um postal sereno foi uma decisão calculada: terras de cultivo sacrificadas, uma cópia consciente de uma paisagem de Hangzhou e uma ponte que funciona ao mesmo tempo como ícone, cenário de cinema e estúdio de pintura ao ar livre. O sistema de água que culmina aqui faz parte da descrição das Aldeias Antigas do Sul de Anhui, Património Mundial da UNESCO desde 2000. O audioguia percorre a margem norte, atravessa o dique central pela Ponte Pintada e termina na margem sul, diante da aldeia refletida na água: é aí, com o lago à frente, que a história e a arquitetura do Lago do Sul acabam de encaixar.
A água que o enche desce pelos canais de água de Hongcun desde a Lagoa da Lua, e na sua margem norte alinha-se a Academia do Lago do Sul.
O ventre de água do boi
Lago do Sul
Resumo desta parada
Na ponta oeste da margem norte chega o primeiro choque de escala. Depois das vielas estreitas, o horizonte alarga-se sobre um lago comprido, contido por uma borda de pedra e curvado como um arco retesado a sul da povoação.
A chave do lugar está na forma como Hongcun se descreve a si mesma: como um boi. Os canais que correm junto às casas são os seus intestinos, e o Lago do Sul é o seu ventre, o lugar onde termina a viagem da água depois de passar pela Lagoa da Lua. As versões não coincidem em toda a anatomia (a Lagoa da Lua aparece umas vezes como coração, outras como estômago e alguma até como cauda), mas quase todas reservam a este lago o papel de ventre. Porque é que um sistema iniciado com um canal por volta de 1405 precisou de dois séculos para se fechar é algo que a narração explica no terreno.
Cem mu de arrozais debaixo de água
Margem em degraus do Lago do Sul
Resumo desta parada
No nível inferior da margem norte, o dique escalonado em duas alturas permite descer quase até à flor da água; a plataforma superior mede cerca de 4 metros de largura. Daqui custa imaginar que, debaixo dessa superfície parada, houve campos de cultivo.
Segundo as fontes, em 1607 os habitantes escavaram vários zhang de profundidade (uma antiga medida chinesa) em cerca de cem mu de terras de cultivo a sul da aldeia e revestiram as margens com pedra. O motivo foi demográfico: uma aldeia que crescia precisava de um segundo reservatório de água e pagou-o com parte da sua terra arável.
O trabalho de sustentar essa decisão continua à vista. Em redor do lago plantaram-se 23 árvores de cinco espécies, entre elas o bordo-vermelho, o salgueiro e o ginkgo, com uma dupla função: segurar a terra do dique e evocar as «cinco cores». Entre salgueiros, folhas de lótus na época e aves aquáticas, a margem guarda mais engenharia do que aparenta.
Uma ponte de 1986 com nome de verso
Ponte Pintada
Resumo desta parada
Sobre o dique central lê-se a planta do lago por inteiro: o lago é o arco e o dique, a flecha que o divide em duas metades. Por cima dessa flecha ergue-se a Ponte Pintada, uma ponte de arco redondo que liga a metade leste à oeste e que permite passar de barco de uma para a outra.
A sua idade é motivo de debate. Segundo as fontes locais, o lago conheceu três grandes reparações, e na de 1986 reconstruiu-se o dique central e levantou-se a ponte; outra versão apresenta-a como parte da paisagem antiga do lago e situa-a na era Qianlong. Conta-se, além disso, que o seu nome vem de «Amanhecer de primavera no Lago do Sul», um poema de Wang Tongwen, jovem poeta de Hongcun no século XVIII.
Recente ou não, a ponte fabrica cinema. Ang Lee filmou em Hongcun cenas de «O Tigre e o Dragão» (2000), e esta é a passagem por onde Li Mu Bai atravessa a levar o seu cavalo. Em 2026 voltou ao ecrã com a série «Jiaye», protagonizada por Yang Zi, que filmou aqui várias cenas importantes. O que significa uma ponte ter existido primeiro num verso fica para a narração, a meio do dique.
O pequeno Lago Oeste reflete a aldeia
Margem sul do Lago do Sul
Resumo desta parada
Da margem sul surge a imagem que deu a Hongcun fama de «aldeia dentro de uma pintura»: as fachadas brancas e os telhados escuros duplicam-se na água parada, com a antiga Academia Nanhu debruçada sobre a margem norte. Nada desse enquadramento é casual. O lago foi traçado a imitar «Lago calmo sob a lua de outono», uma das paisagens do Lago Oeste de Hangzhou.
A comparação teve uma testemunha inesperada. Atribui-se ao letrado Wu Xilin, natural precisamente da região de Hangzhou, ter escrito no outono de 1814 que a afluência de passeantes do lago rivalizava com a do Lago Oeste; daí, segundo a tradição, a alcunha de «pequeno Lago Oeste ao pé de Huangshan». A margem continua a ser uma oficina ao ar livre: a agência Xinhua fotografou em agosto de 2026 estudantes a pintar do natural junto ao lago, herdeiros dos poetas e pintores que aqui deixaram versos e imagens.
Uma noite por ano o lago muda de papel. No Festival do Meio do Outono, Hongcun celebra a festa das lanternas, reconhecida como património cultural imaterial do distrito de Yixian: um cortejo de cerca de cem pessoas percorre durante perto de uma hora a Lagoa da Lua, a entrada e o Lago do Sul com lanternas feitas e pintadas à mão, enquanto a lua cheia flutua na água. Como essa noite encaixa na ideia original do lago é o remate que o audioguia reserva.